OUTUBRO 2026

Agêntico

Júlia Beatricce Achutti Duso

Consumo Agêntico: A IA conversacional como mediadora entre o desejo e a efetivação da compra.

Durante muito tempo, comprar online significou fazer o trabalho de: procurar, comparar, abrir abas, ler avaliações, conferir preços, escolher, preencher dados e finalizar a compra. A tecnologia foi tornando cada uma dessas etapas mais rápida, mas a decisão continuava sendo nossa. Agora, estamos vendo essa lógica começar a mudar.

 

Ferramentas como o ChatGPT, Gemini e outros agentes estão deixando de ser apenas ferramentas de conversa e se aproximando do território comercial. Em vez de procurar por um produto específico, podemos descrever o que precisamos e deixar que a IA pesquise, filtre, compare, recomende e, cada vez mais, execute a compra. É uma mudança importante porque mexe com etapas que pareciam indissociáveis do consumo.

 

Ao terceirizar o processo de pesquisa para algoritmos que cruzam históricos, vídeos e chats, encurtamos o caminho entre desejo e compra de forma artificial. A cada resposta pronta dada por um chatbot, perde-se o espaço para a descoberta acidental e diluem-se as resenhas orgânicas da comunidade. Isso alimenta a dúvida sobre quais critérios o algoritmo usou para nos sugerir determinado produto em detrimento de outros.

 

A busca deixa de ser uma etapa da jornada de compra e começa a se transformar na própria interface de consumo.

 

Isso acontece em um momento em que o consumidor já vive uma relação um tanto desgastante com o excesso de oferta. Como descreve Rachel Sugar, no The Atlantic, estamos presos a um estado de “little bit shopping”: uma exposição contínua a oportunidades de compra, em pequenas doses e quase involuntária, espalhada por redes sociais, e-mail, mensagens e praticamente qualquer superfície digital.

 

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InstagramThe Atlantic on Instagram: "“Everywhere, someone is selling something: on Instagram and TikTok, over email and via text,” Rachel Sugar writes. This has led to a new form of consumerism that she calls “a little bit shopping,” wherein people are stuck ...Mais ações

 

Por que isso nos chamou a atenção?

A IA conversacional nos vendeu a ideia de um assistente neutro e ultrapersonalizado, que economiza nosso tempo e elimina os atritos das buscas tradicionais. Mas esse novo modelo de negócios cobra a conta e rompe de vez a ilusão de um diálogo isento.

 

As movimentações recentes das Big Techs ilustram a dimensão dessa reviravolta. O Google estendeu sua IA agêntica, impulsionada por modelos como o Gemini 3.5 Flash, para todo o seu ecossistema. A OpenAI prepara o terreno para a chegada definitiva do ChatGPT Ads ao mercado brasileiro, com o objetivo de fechar o ano com 40% de sua receita vinda de anúncios exibidos direto no chat.

 

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InstagramThe Economist on Instagram: "When it comes to artificial intelligence, Google long ago upstaged the maker of the iPhone (its models will power many of Apple’s AI features).  It now looks as though it may steal the consumer AI crown from the maker of ...Mais ações

 

O agente de IA processa o texto em segundos, cruza com o seu histórico de buscas, analisa os vídeos que você assistiu e entrega o link de checkout pronto. Você não navegou por nenhuma vitrine, não abriu abas e nem comparou opções. A compra aconteceu no meio de uma conversa, quase sem você perceber.

 

Esse tema fala de um modelo que reescreve as regras de influência e intermediação do mercado. Mas se o marketing sempre tentou influenciar nossas escolhas, por que a mediação por IA provoca um estranhamento tão mais agudo agora?

 

Segundo o Global Digital Shopping Index 2026, da PYMNTS em parceria com a Visa, 53% dos consumidores brasileiros que compram online utilizaram IA em sua compra mais recente. E, entre os brasileiros que já usam IA no processo de compra, 88% dizem que compartilhariam seus dados de pagamento com um agente.

 

Essas são ferramentas que prometem economizar nosso tempo, condensar resenhas e eliminar a jornada linear dos e-commerces tradicionais. O ato de comprar pode virar um papo direto com um assistente virtual. Só que, na prática, algo diferente vem se desenhando: quanto mais a inteligência artificial assume o papel de agente de decisão, mais borrada fica a fronteira entre uma boa recomendação e o direcionamento patrocinado.

 

O agente aparece, então, como uma resposta bastante conveniente para um problema que o próprio ambiente digital ajudou a criar.

 

Como isso se conecta com as marcas?

Para as marcas, a mudança é maior do que adaptar o e-commerce para conversar com IA.

 

Durante anos, boa parte da estratégia digital foi construída em torno de uma premissa: precisamos conquistar a atenção do consumidor. Investiu-se em mídia para aparecer, SEO para ser encontrado, conteúdo para gerar desejo, UX para facilitar a navegação e campanhas para conduzir a conversão.

 

Mas agora, o consumo agêntico pode retirar o consumidor de boa parte dessa equação. Ele pode nunca chegar ao site da marca. Pode não navegar pelo catálogo. Pode não ver a campanha. Pode não comparar dez produtos. Pode simplesmente dizer ao seu agente o que procura e receber uma seleção pronta.

 

Não basta mais a marca ser encontrada pelo consumidor, será preciso ser compreendido pela IA que está entre a marca e o consumidor.

 

Produto, preço, estoque, avaliações, especificações, política de troca e atributos precisam estar organizados de uma forma que as IAs consigam interpretar. No Brasil, apenas 15% dos varejistas têm dados estruturados de produto que podem ser lidos por ferramentas de IA, segundo a pesquisa da PYMNTS. É aqui que uma discussão aparentemente técnica se torna uma discussão de marca.

 

Porque quando o consumidor não está mais escolhendo diretamente entre os produtos, quem decide quais são os critérios da escolha?

 

Quais atributos a IA considera relevantes? Quais avaliações ela prioriza? O que faz uma marca aparecer antes de outra? Isso pode criar uma nova disputa por relevância. Não necessariamente pela atenção do consumidor, mas pela confiança do agente.

 

Agora, se o consumidor pode delegar a compra para seus agentes, como construir uma marca que continue sendo escolhida mesmo quando não é mais ela quem conversa diretamente com o consumidor?

 

Em vez de transformar as caixas de diálogo em barras de anúncios, podemos desenhar jornadas que devolvam o protagonismo ao indivíduo. A inteligência artificial pode encurtar caminhos e remover fricções, mas a construção de confiança, lealdade e desejo continuará dependendo do produto e da relevância da experiência.

 

Até a próxima mordida

Júlia Beatricce Achutti Duso

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