
Por No One
Pense em quantas vezes você se identificou numa compra recentemente. No Brasil, essa cena quase sempre tem dois números envolvidos: o CPF, formalizando identidade, e o telefone, que vem logo em seguida para nos conectar a tudo envolvido no pós-compra: códigos de confirmação, acompanhamento de envio, novas ofertas quentinhas. Um identifica, o outro conecta. O número de telefone virou, na prática, uma chave mestra: ele autentica, unifica cadastro, vira login, alimenta a régua de CRM e abre o canal de conversa.
Em junho, o WhatsApp abriu a reserva de usernames, e desde julho a funcionalidade já está sendo liberada para conversar com contatos novos sem entregar o número. A leitura direta é o ganho de privacidade: entregar o telefone para alguém que você acabou de conhecer sempre foi um gesto estranhamente íntimo. Mas enxergamos outras implicações nesse novo contexto: o identificador que sustenta boa parte da relação entre marcas e clientes acabou de ganhar um substituto.
No mesmo movimento, a tokenização vem tirando o número do cartão do fluxo de checkout. Na prática, tokenizar é trocar o dado real por um substituto sem valor fora daquele contexto: em vez de circular os seus 16 dígitos do cartão entre loja, adquirente e banco, o sistema gera um código aleatório que só funciona ali, naquela relação. Se alguém interceptar, leva um número que não abre nada. O cartão continua existindo, mas ele para de passear pela internet.
Enxergamos aqui um paralelo. O número de telefone deixa de ser a chave para falar, o número do cartão deixa de ser a chave para cobrar. Dois identificadores diferentes, aposentados quase ao mesmo tempo, pela mesma lógica: o dado bruto virou passivo, e a plataforma passou a intermediar quem é o usuário.
Porque a ação entra como privacidade, e privacidade parece ser só a superfície. O que está em jogo também é infraestrutura. E aqui vai a pergunta que a gente não conseguiu tirar da cabeça: e se o username não for a causa de nada, e sim o sintoma mais visível de uma mudança que já estava acontecendo?
O Accenture Life Trends 2026 mostra o mesmo movimento chegando por outra porta: com a busca virando "answering engine", 54% das pessoas dizem que normalmente encontram o que precisam já no resumo de IA, sem clicar. E o relatório é direto sobre a consequência: indicadores tradicionais como visitas de página, taxa de rejeição e caminhos de conversão começam a perder sentido. O Gartner, citado no mesmo estudo, projeta que até 2028 70% das jornadas de atendimento vão começar e terminar dentro de assistentes conversacionais de terceiros, embutidos no aparelho do cliente.
Juntando tudo, enxergamos essa fragmentação dos bastidores: a chave de identificação que muda, a interface virando o agente, e as métricas que sustentavam a leitura dessas jornada se perdendo no caminho. Do lado prático, três efeitos já podemos antecipar. Uma fragmentação de histórico, já que a mesma pessoa vira três clientes diferentes entre site, fidelidade e loja física. Atribuição quebrada, quando o caminho até a compra deixa de ser rastreável de ponta a ponta. E risco de fraudes por personificação, já que o handle é escolhido sem verificação pela operadora, algo que já preocupa especialistas e reguladores desde o rollout.
Parte dessas questões não são novas, a maioria das bases já era fragmentada antes dos usernames do WhatsApp. A diferença é que agora temos um marco temporal que parece mais um teste de maturidade. Quem já trata governança da identidade do cliente como parte da estratégia tende a atravessar bem. Quem é customer-centric só na linguagem do marketing, operando com dados picotados por canal, vai sentir o impacto.

O reflexo natural seria procurar um novo identificador único para substituir o antigo. Mas, além de preencher os campos, talvez precisemos fazer uma outra pergunta: que entrega de valor estamos estabelecendo com os clientes ao identificá-los?
No fim, talvez o caminho não seja substituir o telefone por outro campo no banco de dados, e sim começar a enxergar identidade como uma relação. Uma relação que se sustenta em algo que nenhuma plataforma pode desligar: um cliente que escolhe se identificar porque enxerga valor em ser reconhecido.
Nesse cenário, o cliente entrega um dado menos por conveniência e mais porque a relação justifica. E o WGSN Future Consumer 2026 aponta para onde isso caminha com o perfil que chama de Impartials: consumidores que, diante da crise de desinformação e das fake news, preferem transparência sem verniz a storytelling bem produzido. O dado aqui vira transação: se o valor ao entregar o dado for claro, o entendimento acontece.
Se o telefone sumisse da sua base amanhã, sua empresa ainda saberia quem são os seus clientes?
Até a próxima mordida.